O Roberto tem três objetivos financeiros distintos e dois títulos novos na carteira. Quando o gerente do banco ofereceu um “CDB a 102% do CDI” e um amigo recomendou um “IPCA+ com taxa boa agora”, ele comprou os dois sem entender direito o que tinha adquirido. Não era ignorância: era o vocabulário que faltava. Os indexadores da renda fixa determinam como cada real aplicado vai crescer, e entendê-los muda a forma de escolher.
O que são os indexadores da renda fixa
Antes de falar de título, você precisa entender o motor.
Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira. Quem a define é o Copom (Comitê de Política Monetária), que se reúne aproximadamente a cada 45 dias e decide se ela sobe, cai ou fica parada. Ela não é um índice de mercado: é uma decisão de política monetária, o principal instrumento para controlar a inflação. Em junho de 2026, a Selic está em 14,50% ao ano (decisão do Copom de 29/04/2026).
CDI (Certificado de Depósito Interbancário) é a taxa de referência que define quanto o seu CDB rende. Ela representa o que os bancos cobram uns dos outros em empréstimos de um dia para o outro. O CDI anda colado à Selic, mas fica um pouco abaixo dela: a diferença costuma ser de frações de ponto percentual. Em junho de 2026, o CDI estava em torno de 14,40% ao ano (fonte: B3). Na prática, quando um banco lança um CDB “a 100% do CDI”, a referência é essa taxa.
IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) é o índice oficial de inflação do Brasil, calculado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) todo mês. Não é uma taxa de remuneração em si: é a medida de quanto os preços subiram. Nos 12 meses encerrados em abril de 2026, o IPCA acumulou 4,39% (IBGE, divulgado em maio/2026). Esse é o ritmo que o seu dinheiro precisa superar para não perder poder de compra.
A relação entre os três é direta: quando a inflação (IPCA) sobe, o Copom costuma reagir subindo a Selic para conter os preços, e o CDI acompanha a Selic no dia a dia. É por isso que os três aparecem sempre no mesmo noticiário.
Os três formatos de remuneração que você vai encontrar
Com os indexadores claros, os formatos das ofertas deixam de ser jargão.
Pós-fixado (% do CDI ou CDI + X%)
O rendimento acompanha o CDI durante toda a aplicação. “100% do CDI” significa que você recebe exatamente a variação do CDI no período. “102% do CDI” rende 2% a mais que o CDI, um prêmio proporcional: se o CDI cair, esse ganho extra em reais também encolhe. Já “CDI + 2% a.a.” é diferente: aqui há uma taxa fixa somada ao CDI, não um percentual dele, e esse adicional de 2 pontos foi combinado na compra e não muda.
Nos dois casos, o rendimento acompanha o CDI: a diferença está na fórmula do prêmio, não na natureza variável do retorno. Você não sabe o número exato de hoje daqui a dois anos, mas sabe que vai acompanhar a taxa de juros, para cima e para baixo. Um detalhe importante: verifique a liquidez antes de aplicar. Alguns títulos têm carência e prendem o capital até o vencimento, mesmo sendo pós-fixados.
Prefixado (X% a.a.)
A taxa é travada na contratação. Se o título diz “14% ao ano”, você receberá 14% ao ano independentemente do que o Copom decidir depois, desde que leve o papel até o vencimento. Você conhece o resultado nominal desde o início.
A contrapartida é a marcação a mercado: se os juros subirem após a sua compra, novas emissões passam a oferecer taxas mais altas, o seu título fica menos atrativo e o preço de negociação cai. Se você precisar vender antes do vencimento nesse cenário, pode receber menos do que esperava. Se os juros caírem, o movimento é inverso: o seu papel passa a valer mais. A taxa contratada só é garantida se o título for levado até o fim.
Híbrido (IPCA + X% a.a.)
O rendimento tem duas partes: a inflação do período (IPCA acumulado) mais uma taxa real fixa combinada na compra. “Taxa real” é o ganho acima da inflação, o que sobra no seu poder de compra depois de descontar o IPCA.
A composição é multiplicativa, não uma soma. Um título IPCA + 6% a.a. com IPCA de 4,39% no período rende, em termos nominais, (1,0439 × 1,06) − 1 ≈ 10,65% a.a., não 10,39%. Se levado ao vencimento, o IPCA+ entrega a inflação mais a taxa real combinada, preservando o poder de compra qualquer que seja a inflação. Em resgate antecipado, vale a mesma marcação a mercado do prefixado, e o resultado pode variar.
Quanto cada formato rende na prática
Suponha um aporte de R$ 10.000 por 2 anos, com CDI a 14,40% e IPCA a 4,39% ao ano. As taxas abaixo são ilustrativas e variam no tempo; os valores são brutos, antes do IR, que incide de forma regressiva conforme o prazo de resgate.
- Pós-fixado, CDB a 100% do CDI: (1,1440)² − 1 ≈ 30,9% → cerca de R$ 3.090 brutos (assumindo o CDI parado nesse patamar, o que não acontece na prática: o CDI vai oscilar conforme o Copom).
- Prefixado, CDB a 14% a.a.: (1,14)² − 1 ≈ 30,0% → cerca de R$ 3.000 brutos, travados independentemente do caminho do CDI.
- Híbrido, CDB IPCA + 6% a.a.: taxa nominal de ≈ 10,65% a.a. → (1,1065)² − 1 ≈ 22,4% → cerca de R$ 2.240 brutos.
Nesse cenário, o IPCA+ parece a opção mais fraca. Mas o quadro muda se a inflação acelerar. Se o IPCA subir para 8% ao ano, o mesmo CDB IPCA + 6% passaria a render (1,08 × 1,06) − 1 ≈ 14,5% a.a. O pós-fixado só acompanharia se o próprio CDI subisse na mesma proporção. É exatamente esse o valor do título híbrido: não compete em rendimento nominal quando a inflação está baixa, mas protege quando ela dispara.
| Cenário | CDI 14,40% · IPCA 4,39% | CDI cai p/ 8% · IPCA sobe p/ 8% |
|---|---|---|
| Pós-fixado 100% CDI | ~R$ 3.090 brutos | ~R$ 1.660 brutos |
| Prefixado 14% | ~R$ 3.000 brutos | ~R$ 3.000 brutos (travado) |
| IPCA+ 6% | ~R$ 2.240 brutos | ~R$ 3.100 brutos |
Este conteúdo é educativo e não constitui recomendação de investimento. Os exemplos usam taxas ilustrativas: rentabilidade passada e projeções com indexadores variáveis não garantem resultado futuro.
Como escolher conforme o seu objetivo
Não existe indexador melhor em abstrato. O mais adequado depende de três perguntas. O que segue são padrões de uso comuns, não orientação para o seu caso.
1. Quando você vai precisar do dinheiro? Para a reserva de emergência e dinheiro que pode precisar a qualquer momento, o pós-fixado em CDI com liquidez diária costuma ser a escolha: acompanha a taxa vigente sem oscilar o valor do principal. Atenção, porém: nem todo CDB oferece resgate antes do vencimento. Verifique as condições do papel antes de aplicar recursos de curto prazo.
2. O que você acha que vai acontecer com os juros? Se você acredita que a Selic vai cair nos próximos anos, um prefixado trava a taxa atual antes da queda. O risco é simétrico: se os juros subirem, você fica preso numa taxa abaixo do mercado, e uma saída antecipada pode dar prejuízo via marcação a mercado. Se não tiver certeza sobre a direção dos juros (o caso da maioria dos investidores), o pós-fixado já é uma escolha sólida e sem surpresas.
3. Qual é o horizonte do objetivo? Para objetivos de mais de cinco ou dez anos (aposentadoria, a faculdade dos filhos), o IPCA+ protege o poder de compra: a taxa real fixa entrega um ganho acima da inflação se o título for carregado até o vencimento e o emissor honrar o pagamento. Lembre que, em títulos privados, o pagamento depende sempre da solidez de quem emitiu o papel, não só da taxa. Nos papéis cobertos pelo FGC, essa proteção vale até um limite por instituição; veja como ficar abaixo do teto do FGC contando o rendimento.
A escolha, no fim, é por objetivo: liquidez e curto prazo pedem pós-fixado em CDI; convicção de que os juros vão cair pede prefixado; horizonte longo e proteção contra a inflação pedem IPCA+. Carteiras equilibradas costumam combinar os três. Definido o formato, o passo seguinte é comparar os títulos pelo rendimento líquido, depois do IR: veja CDB ou LCI: qual rende mais na prática.
Tabela comparativa dos indexadores da renda fixa
| Pós-fixado (CDI) | Prefixado | Híbrido (IPCA+) | |
|---|---|---|---|
| Acompanha | CDI (≈ Selic) | Taxa nominal travada na compra | Inflação + taxa real fixa |
| Rende mais quando | Os juros sobem | Os juros caem após a compra | A inflação sobe acima do esperado |
| Melhor para | Reserva, curto prazo | Travar taxa antes de uma queda | Longo prazo, proteção do poder de compra |
| Marcação a mercado | Baixa | Alta (se vender antes do vencimento) | Alta (se vender antes do vencimento) |
| Exemplo de título | CDB 100% do CDI, Tesouro Selic* | CDB prefixado, Tesouro Prefixado* | CDB IPCA+, Tesouro IPCA+* |
* O Tesouro Direto é título público, emitido pelo Governo Federal. Não é coberto pelo FGC porque o emissor é o próprio governo: o risco é soberano, de natureza diferente do risco de crédito de um banco.
Ver a sua carteira por indexador na Vestu
Entender os três indexadores é a teoria. A prática é olhar para a sua própria carteira e responder: quanto do que você tem já está em cada formato? Foi a pergunta que faltou ao Roberto.
A Vestu mostra um gráfico de composição da carteira por indexador, separando Prefixado, IPCA e CDI, para você enxergar de relance se está concentrado demais num único tipo. Ao lado, a plataforma compara o desempenho acumulado da carteira com o CDI e com o IPCA no período, em janelas de 3 meses, 6 meses, este ano, 12 meses e tudo. A tabela comparativa acima vira, então, uma pergunta concreta: a sua carteira está rendendo acima do CDI? Está preservando poder de compra acima do IPCA?
Você adiciona seus títulos de três formas: manualmente, por importação com IA a partir de uma imagem, PDF ou planilha, ou usando o importador dedicado para extratos da Rico. A partir daí, a Vestu monta o gráfico automaticamente.
A Vestu não vende produtos financeiros nem recebe comissão por indicação. A ferramenta existe para dar clareza sobre o que você já tem.
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Se quiser ver a composição da sua própria carteira por indexador, e quanto cada parte está rendendo em relação ao CDI, crie uma conta na Vestu e adicione os seus títulos.