Você tem R$ 230.000 num CDB e acha que está tranquilo dentro do teto do FGC. Mas o que o Fundo Garantidor de Créditos protege não é só o que você aplicou: é o valor do título com os juros acumulados. Some isso ao fato de que dois “bancos diferentes” podem dividir um único limite, e o número que parecia seguro pode estourar o teto antes do vencimento sem você perceber. Vamos fazer as contas.
O que o FGC garante (e qual é o número que importa)
O FGC (Fundo Garantidor de Créditos) cobre o seu dinheiro, até o limite, se o Banco Central decretar a intervenção ou a liquidação da instituição emissora, ou seja, o banco que emitiu o seu título. A regra prática:
- Limite por instituição (ou grupo): R$ 250.000 por CPF, por instituição ou por conglomerado financeiro.
- Teto global: até R$ 1.000.000 por CPF a cada período de 4 anos, contado a partir da primeira vez que você aciona a garantia. Passado esse período, o limite é renovado.
- O que cobre: principal mais juros, até o limite, calculado pelo valor que o título tinha no dia em que o banco quebrou.
Esse “principal mais juros” é o detalhe que derruba a maioria das contas caseiras. O FGC não olha o que você depositou. Ele olha quanto o título valia na data da intervenção: o aplicado mais o rendimento acumulado até ali. E é o valor bruto do crédito (principal mais juros, antes de IR) que entra nessa conta contra os R$ 250.000.
Vale lembrar duas coisas que muita gente não conta. Primeiro, o pagamento do FGC não é instantâneo: ele ocorre depois que o Banco Central decreta a liquidação e o liquidante disponibiliza a lista de credores, e nesse intervalo o dinheiro fica indisponível. Segundo, se você vender o título antes do vencimento, o preço de venda depende do mercado secundário (quem compra paga um valor que oscila com os juros do momento) e pode ficar abaixo do valor que o título vinha acumulando. Essa oscilação de venda antecipada não muda o que o FGC garante, que é o valor do crédito na data da intervenção. Renda fixa é de baixo risco, não de risco zero.
Isso deixou de ser hipótese há pouco tempo. Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master, no maior acionamento do FGC da história do sistema financeiro brasileiro. Quem tinha até R$ 250 mil por conglomerado foi coberto e começou a ser ressarcido a partir de janeiro de 2026. Quem havia concentrado mais do que isso ficou com o excedente fora da garantia: virou credor quirografário na liquidação, no fim da fila de pagamentos e sem garantia de reaver o que passou do teto. Taxas mais altas remuneram um risco maior, e é por isso que concentrar muito num único emissor pede atenção ao teto.
Por que um aporte de R$ 230.000 pode estourar o teto do FGC
Suponha um CDB de R$ 230.000 a 110% do CDI, com prazo de 3 anos e sem pagamento de juros no meio do caminho (os juros ficam acumulados até o vencimento). Com o CDI em torno de 14,4% ao ano em junho de 2026 (e supondo-o constante apenas para a conta), o rendimento bruto fica em cerca de 15,8% ao ano (110% de 14,4% = 15,84%).
Veja como o valor do título cresce ano a ano:
| Momento | Valor aplicado | Juros acumulados (bruto) | Valor do título |
|---|---|---|---|
| Hoje | R$ 230.000 | R$ 0 | R$ 230.000 |
| Em 1 ano | R$ 230.000 | ~R$ 36.430 | R$ 266.430 |
| Em 2 anos | R$ 230.000 | ~R$ 78.630 | R$ 308.630 |
| No vencimento (3 anos) | R$ 230.000 | ~R$ 127.520 | R$ 357.520 |
Os valores são ilustrativos, com o CDI suposto constante em 14,4% ao ano e usando o valor bruto (antes de IR) só para mostrar a mecânica. O objetivo é a conta, não prever o seu rendimento.
O que o FGC pagaria, se o banco quebrasse, é o valor do crédito naquele dia: principal mais os juros acumulados até ali, limitado a R$ 250.000. Como esse valor cresce a cada dia neste tipo de título, a maior exposição a vigiar é o pico, que aqui acontece no vencimento. No exemplo, esse pico bruto chega a cerca de R$ 357.500, então algo na casa de R$ 107.500 ficaria acima do teto se a quebra coincidisse com o vencimento.
Repare que essa é a leitura conservadora, de propósito. Como o FGC apura o valor na data da intervenção (e não no vencimento), uma quebra antes do fim do prazo pagaria um valor menor, e o descoberto real tenderia a ser menor que esses R$ 107.500. Mas você não controla quando uma quebra pode acontecer. Por isso, a base segura de planejamento é o pico projetado: se nem ele passar de R$ 250.000, você está dentro do limite no cenário projetado.
Atenção a um detalhe que muda a conta: a regra “o valor cresce todo dia e o pico está no vencimento” só vale para títulos que acumulam juros até o fim (os CDBs, LCIs e LCAs bullet, como o do exemplo; bullet significa que não há pagamento de juros no meio, tudo sai no vencimento). Em papéis que pagam juros periódicos (como alguns IPCA+ com cupom semestral, em que o cupom é um pagamento de juros a cada seis meses), o valor não sobe em linha reta: ele cai a cada pagamento. Nesses casos, o pico costuma ficar logo antes de cada cupom, não no vencimento. Para entender os indexadores por trás dessas siglas (CDI, IPCA, prefixado), veja CDI, Selic e IPCA: entenda os indexadores da renda fixa.
Por isso a leitura correta não é “quanto cabe hoje”, e sim “qual o maior valor projetado ao longo da vida do título”. Para não estourar, você dimensiona o aporte de trás para frente: parte do teto de R$ 250.000 e desconta o rendimento esperado, de modo que nem o pico passe do limite.
Bancos do mesmo grupo dividem um único limite
O segundo erro comum é achar que cada CNPJ tem o seu próprio R$ 250.000. Não é assim. Instituições do mesmo conglomerado financeiro (o grupo econômico que controla os bancos) compartilham um único limite.
Um exemplo numérico do problema, já usando o valor projetado de cada título no vencimento:
| Onde está o dinheiro | Valor projetado no vencimento | Cobertura |
|---|---|---|
| Banco A (mesmo grupo) | R$ 160.000 | — |
| Banco B (mesmo grupo) | R$ 140.000 | — |
| Soma do grupo | R$ 300.000 | R$ 50.000 sem cobertura |
Cada título isolado parece seguro, e você até imagina ter dois limites de R$ 250.000. Mas, somados no mesmo grupo, R$ 50.000 ficam fora da garantia.
E como descobrir se os seus dois bancos são do mesmo grupo? Cuidado com um atalho que não funciona: comparar o CNPJ. A “raiz” do CNPJ (os oito primeiros dígitos) identifica uma mesma empresa e suas filiais, não o conglomerado. Bancos do mesmo grupo costumam ser empresas distintas, com raízes de CNPJ diferentes (o C6, por exemplo, aparece como BANCO C6 CONSIGNADO e BANCO C6 S.A., com CNPJs distintos), e ainda assim dividem um único limite. Raiz igual prova que é a mesma empresa; raiz diferente não prova que são grupos separados. O que define é o controlador.
A forma confiável é consultar a lista de Instituições Associadas e Conglomerados Financeiros no site do FGC (fgc.org.br). Ela agrupa as instituições que dividem um mesmo limite, e é a referência que decide. Na prática:
- Abra a lista de instituições associadas no site do FGC e busque o nome de cada um dos seus bancos.
- Veja a qual conglomerado cada um pertence. Se os dois aparecerem sob o mesmo grupo, eles somam no mesmo limite de R$ 250.000.
- Na dúvida, trate como se fossem o mesmo grupo. É o caminho conservador.
O que o FGC NÃO cobre
A garantia vale para uma lista específica de papéis. Boa parte do que está na carteira de muita gente fica de fora. Os papéis cobertos mais comuns são CDB, LCI e LCA (na dúvida entre os dois primeiros, veja CDB ou LCI: qual rende mais na prática):
| Coberto pelo FGC | Fora do FGC |
|---|---|
| CDB, RDB | Tesouro Direto (garantido pelo Governo Federal) |
| LCI, LCA | Fundos de investimento |
| Poupança, depósitos à vista | Debêntures, CRI, CRA |
| LC (letra de câmbio) | Ações, COE, previdência |
A lista mostra os papéis mais comuns; o rol completo está no regulamento do FGC. Atenção a um ponto: o Tesouro Direto não estar no FGC não significa estar desprotegido. Ele é garantido pelo próprio Governo Federal, ou seja, costuma ser tratado como a referência de menor risco de crédito em reais (o risco soberano). Ainda assim, títulos prefixados ou IPCA+ longos oscilam de preço se você vender antes do vencimento.
E o teto global de R$ 1 milhão? Para quem tem um ou dois bancos, ele quase nunca pesa: o número do dia a dia é o de R$ 250.000 por grupo. Ele só entra em cena se você acionar a garantia em mais de uma instituição dentro do mesmo período de 4 anos, quando a soma de tudo o que você recebe do FGC fica limitada a R$ 1 milhão por CPF.
Como acompanhar isso sem planilha
Fazer essa conta na mão, para cada título, projetando o rendimento e somando por grupo, é trabalhoso e fácil de errar. A Vestu codifica essa boa prática na ferramenta.
No Dashboard, a seção FGC monitora a sua exposição por grupo (conglomerado), não só por instituição. A Vestu funde automaticamente os bancos do mesmo grupo num único “Grupo”. Por exemplo, um “Grupo C6” reúne BANCO C6 CONSIGNADO e BANCO C6 S.A. Para cada grupo, ela mostra dois números como percentual do limite de R$ 250.000:
- Exposição atual: quanto você tem hoje naquele grupo.
- Máxima projetada: o valor projetado no vencimento (principal mais juros, em termos brutos), o ponto em que a exposição costuma ser maior em títulos que acumulam juros até o fim.
Essa máxima projetada resolve o erro de contar só o aplicado: ela já antecipa o pico, com o rendimento incluído. O monitoramento por grupo resolve o erro de tratar bancos do mesmo conglomerado como limites separados. Grupos que se aproximam do teto aparecem sinalizados como “Próximo do limite” no painel, à vista assim que você abre o Dashboard.
E antes de aplicar, a Simulação mostra o impacto na hora de decidir. Ao escolher uma instituição, ela exibe a “Exposição projetada após este investimento”, que soma a exposição atual do grupo ao valor projetado do novo título, contra os R$ 250.000. Se passar do limite, o aviso fica vermelho com a mensagem:
Este investimento ultrapassa o limite do FGC (R$ 250.000,00) neste grupo. Em caso de insolvência, o excedente não estaria coberto.
Esse é o tipo de checagem que evita o aporte que furaria o teto antes mesmo de ele acontecer. Você decide com a informação à frente. A ferramenta dá clareza; a escolha é sua.
A Vestu não vende produtos financeiros nem recebe comissão por indicação. A ferramenta existe para dar clareza sobre o que você já tem. Este conteúdo é educativo e não constitui recomendação de investimento.
Coloque seus números à prova
A cobertura do FGC só vale até o limite. Por isso, contar o rendimento e somar por grupo é o que evita surpresas. Crie sua conta na Vestu para ver sua exposição por grupo (FGC) e simular o impacto de um novo aporte antes de aplicar.